John Zerzan: a crítica à tecnologia que controla o utilizador

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Conversa com introdução de António Cândido Franco, quarta-feira, 10 de Maio, às 18 horas, na Livraria Ler Com Prazer, em Évora.

O último pensador libertário a ser objecto de debate na próxima sessão de quarta-feira, dia 10 de Maio, do “Ciclo do Pensamento Libertário”,  que quinzenalmente se realiza em Évora desde há vários meses, é John Zerzan, um dos mais conhecidos representantes da ala anarco-primitivista do pensamento libertário contemporâneo. O pensamento anarquista é muito diversificado, funciona em rede e nenhum olhar tem mais “autoridade” do que outro para se expressar. No fundamental, todas as correntes anarquistas visam a eliminação do trabalho alienado e assalariado, a supressão do estado e das relações hierárquicas, a autonomia individual e colectiva, bem como a livre associação de seres livres, libertos dos constrangimentos de classe, raça, religião ou pátria. Cada corrente defende e propõe um caminho para chegar a esta sociedade ideal. Morto – e, espera-se, enterrado de vez – o pensamento autoritário e dogmático do socialismo marxista, dito científico, que destruiu em milhões de seres – em muitos casos destruindo-os a eles, também, enquanto seres concretos e individuais – a ideia de socialismo e de uma outra sociedade, resta como espaço de utopia e de construção de um novo mundo o anarquismo. Nas suas múltiplas variantes. Tal como a vida. Diverso e fecundo.

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John Zerzan (1943) é um filósofo e escritor anarquista norte-americano que se destacou na segunda metade da década de 1980. É considerado um dos expoentes do anarco-primitivismo.

Os seus trabalhos abordam a origem e as consequências do surgimento da sociedade industrial de comunicação de massas, bem como a sua inerente opressão, defendendo formas inspiradas em modos de vida pré-históricos, que considera modelos de sociedades plenas de liberdade. Algumas das suas críticas mais desafiadoras referem-se ao processo de domesticação, à linguagem, ao pensamento simbólico (como matemática e arte) e ao conceito de tempo.

O Anarquismo de John Zerzan

As teorias de Zerzan recorrem ao conceito de dialéctica negativa de Theodor Adorno para a construção de uma teoria da civilização como a construção cumulativa da alienação. De acordo com Zerzan, as sociedades originais humanas em tempos paleolíticos e as sociedades semelhantes actuais como os Kung!, os bosquímanos e os Mbuti, vivem uma forma não-alienada e não-opressiva de vida baseada na abundância primitiva e proximidade com a natureza. Construindo tais sociedades como uma espécie de ideal político, ou pelo menos como uma comparação instrutiva com o objetivo de denunciar as sociedades contemporâneas (especialmente industriais), Zerzan usa estudos antropológicos de tais sociedades como a base para uma ampla crítica de aspectos da vida moderna. Ele retrata a sociedade contemporânea como um mundo de miséria construído sobre a produção psicológica de uma sensação de escassez e falta. A história da civilização é a história da renúncia, o que está contra ela não é progresso, mas sim a Utopia, que decorre da sua negação.

Zerzan é um anarquista e é amplamente associado com as filosofias do anarco-primitivismo, anarquismo verde, anti-civilização, anarquia pós-esquerda, neo-ludismo e em particular a crítica à tecnologia. Ele rejeita não só o Estado, mas todas as formas de relações hierárquicas e autoritárias. “Simplificando, anarquia significa ‘sem regra’. Isto implica não só uma rejeição ao governo, mas à todas as outras formas de dominação e de poder também.”

O trabalho de Zerzan depende de um forte dualismo entre o “primitivo” – visto como não-alienado, selvagem, não-hierárquico, lúdico e socialmente igualitária – e o “civilizado” – visto como alienado, domesticado, hierarquicamente organizado e socialmente discriminatório. Por isso, “a vida antes da domesticação/agricultura era de fato em grande parte uma vida de lazer, de intimidade com a natureza, sabedoria sensual, de igualdade sexual e de saúde”.

Zerzan apela a um “Futuro Primitivo”, uma reconstrução radical da sociedade baseada  numa rejeição da alienação e um abraço ao selvagem. “Pode ser que a nossa única esperança real seja a recuperação de uma existência social face-a-face, a descentralização radical, um desmantelamento da trajectória altamente tecnológica, devoradora, alienadamente produtivista, que é tão empobrecedora”.[3] O comum uso de evidências antropológicas é comparativo e demonstrativo – a necessidade ou naturalidade de aspectos das sociedades ocidentais modernas é desafiada apontando contra-exemplos em sociedades de caçadores-coletores. “A crescente documentação da pré-história humana, como um período muito longo de grande parte da vida não alienada, está em nítido contraste com as falhas cada vez mais gritantes da modernidade insustentável”[2]. Não é claro, porém, se isso implica um restabelecimento de formas literais das sociedades de caçadores-coletores ou em, de uma forma ampla, aprender com seus modos de vida a fim de construir relações não-alienadas.

O projeto político de Zerzan defende a destruição da tecnologia. Ele traça a mesma distinção de Ivan Illich, entre as ferramentas que ficam sob o controle do utilizador e sistemas tecnológicos que usam o utilizador para o controlar. Uma diferença é a divisão do trabalho, à qual Zerzan se opõe. Na filosofia de Zerzan, a tecnologia é pertença de uma elite que tem automaticamente o poder sobre outros utilizadores: Este poder é uma das fontes da alienação, em conjunto com a domesticação e o pensamento simbólico.

Zerzan foi um dos editores do Green Anarchy, um periódico polémico do anarco-primitivismo e pensamento anarquista insurreccional. Ele também é o anfitrião do Anarchy Rádio em Eugene na estação de rádio da Universidade de Oregon KWVA. Ele também foi editor contribuinte da Anarchy Magazine e textos seus foram publicados em revistas como a Adbusters. Ele fez inúmeras palestras por todo o mundo.

aqui: com alterações

artigo no The Guardian (em inglês):  https://www.theguardian.com/world/2001/apr/18/mayday.features11

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