Neno Vasco (1878-1920)

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Neno Vasco é o próximo autor a ver o seu pensamento apresentado e debatido no “Ciclo do Pensamento Libertário” que se realiza quinzenalmente em Évora, na Livraria Ler Com Prazer. Esta sessão está marcada para o próximo dia 1 de Fevereiro, às 18 horas. A entrada é livre e o debate aberto.

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Gregório Nazianzeno Moreira de Queiroz e Vasconcelos, mais conhecido como Neno Vasco, nasceu em Penafiel a 9 de Maio de 1878. Aos 8 ou 9 anos de idade emigra juntamente com o seu pai e a sua madrasta para a cidade de São Paulo, no Brasil. Alguns anos depois regressa a Portugal para concluir os seus estudos indo viver na casa de seus avós paternos em Amarante.

Matricula-se na Faculdade de Direito onde passa a ter aulas. Tem como colegas e amigos futuros ilustres da intelectualidade portuguesa como o poeta Teixeira de Pascoaes, Faria de Vasconcelos e António Resende. No ano de 1901 conclui o curso de bacharelado. Ao mesmo tempo passa a empreender atividades militantes, em 2 de Março de 1901 publica o panfleto – A Academia de Coimbra ao Povo Portuguez – onde faz uma ferrenha crítica às arbitrariedades da polícia. Neste mesmo ano começa a escrever artigos para o jornal republicano O Mundo, à época publicado em Lisboa sob a direção de Mayer Garção.

No final de 1901 retorna ao Brasil onde rapidamente estabeleceu contacto com anarquistas italianos através dos quais tomou conhecimento da obra de Errico Malatesta que daquele momento em diante exerceu uma profunda influência no seu pensamento. Em poucos meses passou a corresponder-se com Malatesta e neste contacto as suas ideias e concepções foram-se alterando. Do Brasil escreveu e enviou textos sobre literatura e revolução a serem publicados em Portugal na revista “A Sementeira” na qual também escreveu um artigo memorável sobre a obra, vida e morte do francês Octave Mirbeau.

Na cidade de São Paulo em 1902 passa a editar o jornal “Amigo do Povo” , em conjunto com Benjamim Mota, Oreste Ristori, Giulio Sorelli, Tobia Boni, Ângelo Bandoni, Gigi Damiani e Ricardo Gonçalves. A influência do periódico foi imediata, transformando-se não só como um dos principais espaços de dialogo sobre o movimento anarquista brasileiro, mas também um lugar de reflexão de questões relacionadas com a “emancipação feminina” por um número considerável mulheres notáveis que passaram a contribuir para esta publicação. A partir destas discussões  Neno Vasco publicou um artigo neste periódico refutando a tese do naturalista Émile Zola acerca da fecundidade. Algum tempo depois lançou a revista “Aurora”.

Nas páginas do jornal “Voz do Trabalhador” Neno Vasco respondeu às críticas de alguns anarquistas (entre eles Luigi Galleani) que acusava as organizações anarco-sindicalistas de serem apenas uma nova forma de governo. A polémica sobre as relações entre anarquismo e sindicalismo, deu à época um amplo debate, importante para a compreensão de como as diferentes correntes dentro do movimento libertário se situavam em relação ao movimento operário e à suas organizações.

No ano de 1904 traduziu para o português do francês a obra “Evolução, Revolução e Ideal Anarquista” do francês Élisée Reclus. Em 1905 casou-se com Mercedes Moscovo, anarcafeminista filha de uma família espanhola e anarquista por gerações. Nesta época desenvolveu intensa actividade de propagação do pensamento libertário tornando-se uma referência entre os libertários brasileiros com os quais colaborava. Também neste ano passou a editar o periódico “A Terra Livre” com sua esposa, Edgard Leuenroth e outros. Ao mesmo tempo se manteve em diálogo com outros anarquistas de origem portuguesa que, atuavam no Brasil, entre eles Adelino Tavares de Pinho – um comerciante do Porto que exercera a função de professor na Escola Moderna -, Marques da Costa – editor do jornal “O Trabalho” -, Manuel Cunha, Diamantino Augusto, Amílcar dos Santos, Raul Pereira dos Santos, José Romero, etc.

Em 1909 traduziu o hino internacionalista “A Internacional “do francês Eugène Pottier para o português. Rapidamente a sua versão difundiu-se no meio anarco-sindicalista, tanto no Brasil como em Portugal, passando a ser ouvido em manifestações operárias como greves e comícios nestes dois países desde então.

Proclamada a República em 1910, Neno Vasco retornou a Portugal onde continuou a desenvolver sua militância anarquista, colaborando com a imprensa anarquista brasileira como correspondente. Tornou-se colaborador permanente da revista libertária “A Sementeira” na qual escreveu sobre a situação social no Brasil.

No ano seguinte, nos dias 11, 12 e 13 de Novembro participou do 1º Congresso Anarquista Português. Em 1912 lançou a coleção ‘A Brochura Social’ com Lima da Costa editando duas obras, tomou parte em diversos encontros anarquistas como a (Conferência Anarquista de Lisboa em 1914), publicou o folheto “Geórgias: ao trabalhador rural” no periódico semanal de Pinto Quartin “Terra Livre”, ofereceu cursos de formação aos jovens das Juventudes Sindicalistas em “O Germinal”. Em 1910 desentendeu-se com Emídio Costa sobre estratégias diante da Primeira Guerra Mundial, tendo criado relações de amizade com muitos militantes do movimento anarquista português.

Em 15 de Setembro de 1920, aos 42 anos, Neno Vasco, intelectual brilhante e influente militante libertário em dois continentes, morreu de tuberculose, pobre e seguro das suas posições anarquistas, na freguesia de São Romão do Coronado do concelho de Trofa, no norte de Portugal.

Durante toda sua vida, o seu esforço no movimento editorial muito contribuiu para o crescimento da influência libertária nos meios operários no Brasil e em Portugal. O seu principal livro é “A Concepção Anarquista do Sindicalismo”, publicado em 1923 pelo coletivo editorial do jornal anarco-sindicalista  “A Batalha” e reeditado em 1984.

Na cidade de São Paulo, no bairro Cidade Tiradentes existe uma rua com seu nome. No município de Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro há igualmente um edifício com o nome Pr. Neno Vasco construído em 1976.

daqui (com alterações do texto) e daqui

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Biografia de Neno Vasco “Minha Pátria é o mundo inteiro”, de Alexandre Samis. editora Letra Livre, Lisboa, 2009, 455 páginas

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