John Zerzan: a crítica à tecnologia que controla o utilizador

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Conversa com introdução de António Cândido Franco, quarta-feira, 10 de Maio, às 18 horas, na Livraria Ler Com Prazer, em Évora.

O último pensador libertário a ser objecto de debate na próxima sessão de quarta-feira, dia 10 de Maio, do “Ciclo do Pensamento Libertário”,  que quinzenalmente se realiza em Évora desde há vários meses, é John Zerzan, um dos mais conhecidos representantes da ala anarco-primitivista do pensamento libertário contemporâneo. O pensamento anarquista é muito diversificado, funciona em rede e nenhum olhar tem mais “autoridade” do que outro para se expressar. No fundamental, todas as correntes anarquistas visam a eliminação do trabalho alienado e assalariado, a supressão do estado e das relações hierárquicas, a autonomia individual e colectiva, bem como a livre associação de seres livres, libertos dos constrangimentos de classe, raça, religião ou pátria. Cada corrente defende e propõe um caminho para chegar a esta sociedade ideal. Morto – e, espera-se, enterrado de vez – o pensamento autoritário e dogmático do socialismo marxista, dito científico, que destruiu em milhões de seres – em muitos casos destruindo-os a eles, também, enquanto seres concretos e individuais – a ideia de socialismo e de uma outra sociedade, resta como espaço de utopia e de construção de um novo mundo o anarquismo. Nas suas múltiplas variantes. Tal como a vida. Diverso e fecundo.

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John Zerzan (1943) é um filósofo e escritor anarquista norte-americano que se destacou na segunda metade da década de 1980. É considerado um dos expoentes do anarco-primitivismo.

Os seus trabalhos abordam a origem e as consequências do surgimento da sociedade industrial de comunicação de massas, bem como a sua inerente opressão, defendendo formas inspiradas em modos de vida pré-históricos, que considera modelos de sociedades plenas de liberdade. Algumas das suas críticas mais desafiadoras referem-se ao processo de domesticação, à linguagem, ao pensamento simbólico (como matemática e arte) e ao conceito de tempo.

O Anarquismo de John Zerzan

As teorias de Zerzan recorrem ao conceito de dialéctica negativa de Theodor Adorno para a construção de uma teoria da civilização como a construção cumulativa da alienação. De acordo com Zerzan, as sociedades originais humanas em tempos paleolíticos e as sociedades semelhantes actuais como os Kung!, os bosquímanos e os Mbuti, vivem uma forma não-alienada e não-opressiva de vida baseada na abundância primitiva e proximidade com a natureza. Construindo tais sociedades como uma espécie de ideal político, ou pelo menos como uma comparação instrutiva com o objetivo de denunciar as sociedades contemporâneas (especialmente industriais), Zerzan usa estudos antropológicos de tais sociedades como a base para uma ampla crítica de aspectos da vida moderna. Ele retrata a sociedade contemporânea como um mundo de miséria construído sobre a produção psicológica de uma sensação de escassez e falta. A história da civilização é a história da renúncia, o que está contra ela não é progresso, mas sim a Utopia, que decorre da sua negação.

Zerzan é um anarquista e é amplamente associado com as filosofias do anarco-primitivismo, anarquismo verde, anti-civilização, anarquia pós-esquerda, neo-ludismo e em particular a crítica à tecnologia. Ele rejeita não só o Estado, mas todas as formas de relações hierárquicas e autoritárias. “Simplificando, anarquia significa ‘sem regra’. Isto implica não só uma rejeição ao governo, mas à todas as outras formas de dominação e de poder também.”

O trabalho de Zerzan depende de um forte dualismo entre o “primitivo” – visto como não-alienado, selvagem, não-hierárquico, lúdico e socialmente igualitária – e o “civilizado” – visto como alienado, domesticado, hierarquicamente organizado e socialmente discriminatório. Por isso, “a vida antes da domesticação/agricultura era de fato em grande parte uma vida de lazer, de intimidade com a natureza, sabedoria sensual, de igualdade sexual e de saúde”.

Zerzan apela a um “Futuro Primitivo”, uma reconstrução radical da sociedade baseada  numa rejeição da alienação e um abraço ao selvagem. “Pode ser que a nossa única esperança real seja a recuperação de uma existência social face-a-face, a descentralização radical, um desmantelamento da trajectória altamente tecnológica, devoradora, alienadamente produtivista, que é tão empobrecedora”.[3] O comum uso de evidências antropológicas é comparativo e demonstrativo – a necessidade ou naturalidade de aspectos das sociedades ocidentais modernas é desafiada apontando contra-exemplos em sociedades de caçadores-coletores. “A crescente documentação da pré-história humana, como um período muito longo de grande parte da vida não alienada, está em nítido contraste com as falhas cada vez mais gritantes da modernidade insustentável”[2]. Não é claro, porém, se isso implica um restabelecimento de formas literais das sociedades de caçadores-coletores ou em, de uma forma ampla, aprender com seus modos de vida a fim de construir relações não-alienadas.

O projeto político de Zerzan defende a destruição da tecnologia. Ele traça a mesma distinção de Ivan Illich, entre as ferramentas que ficam sob o controle do utilizador e sistemas tecnológicos que usam o utilizador para o controlar. Uma diferença é a divisão do trabalho, à qual Zerzan se opõe. Na filosofia de Zerzan, a tecnologia é pertença de uma elite que tem automaticamente o poder sobre outros utilizadores: Este poder é uma das fontes da alienação, em conjunto com a domesticação e o pensamento simbólico.

Zerzan foi um dos editores do Green Anarchy, um periódico polémico do anarco-primitivismo e pensamento anarquista insurreccional. Ele também é o anfitrião do Anarchy Rádio em Eugene na estação de rádio da Universidade de Oregon KWVA. Ele também foi editor contribuinte da Anarchy Magazine e textos seus foram publicados em revistas como a Adbusters. Ele fez inúmeras palestras por todo o mundo.

aqui: com alterações

artigo no The Guardian (em inglês):  https://www.theguardian.com/world/2001/apr/18/mayday.features11

David Harvey: um pensador de raiz marxista no “Ciclo do Pensamento Libertário”

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O próximo pensador cujas ideias vão ser debatidas no “Ciclo do Pensamento Libertário” em Évora, já esta quarta-feira, dia 12 de Abril, pelas 18 horas, na Livraria Ler Com Prazer, é um geógrafo de formação marxista – e que se reivindica dessa tradição – mas que nos últimos anos tem adoptado posicionamentos próximos da prática e da formulação libertária, chegando até a propor um diálogo profundo entre as duas correntes – a libertária e a autoritária. Para este teórico do movimento social, as ocupações de ruas e praças nos Estados Unidos, Brasil e Europa são determinantes para (re)pensar a cidade e o modelo económico vigente.

David Harvey (Gillingham, Kent, 7 de dezembro de 1935) é um geógrafo britânico, de formação marxista, licenciado pela Universidade de Cambridge. É professor da City University of New York e trabalha com diversas questões ligadas à geografia urbana.

O seu primeiro livro, Explanation in Geography, publicado em 1969, versa sobre a epistemologia da geografia, ainda no paradigma da chamada geografia quantitativa. Posteriormente, Harvey muda o foco da sua atenção para a problemática urbana, a partir de uma perspectiva materialista-dialética. Publica então Social Justice and the City no início da década de 1970, onde confronta o paradigma liberal e o paradigma marxista na análise dos problemas urbanos. O seu livro seguinte, The Limits to Capital, é um denso estudo do pensamento económico de Marx. Com algumas posições heterodoxas em relação a alguns aspectos da teoria marxista tradicional, como a teoria das crises, o livro não foi  bem aceite pelo pensamento dominante.

Mais recentemente, Harvey tem defendido a tese do crescimento zero para a economia global. Durante o Fórum Social Mundial de 2010, afirmou: “Três por cento de crescimento composto (geralmente considerada a taxa de crescimento mínima satisfatória para uma economia capitalista saudável) está se tornando cada vez menos viável de se sustentar sem recorrer a toda sorte de ficções (como aquelas que têm caracterizado os mercados de activos financeiros e o mundo dos negócios ao longo das últimas duas décadas). Há boas razões para acreditar que não há alternativa senão uma nova ordem mundial de governança que afinal deverá gerir a transição para uma economia de crescimento zero.”

Em 2012 a Verso Books organizou uma coletânea de artigos de Harvey publicados em periódicos como New Left Review e Socialist Register apresentando exemplos que vão desde a Comuna de Paris até o Movimento Occupy Wall Street para refletir sobre como a vida nas cidades poderia ser socialmente mais justa e ecologicamente mais sã.

Ele afirma que a ocupação do espaço público nunca foi tão discutida como neste início do século XXI, e é nas cidades que vemos acontecer os mais importantes movimentos de resistência e as rebeliões que clamam por mudanças na ordem política e social. Nova York, São Paulo, Mumbai, Pequim, Bogotá e até Joanesburgo fazem parte da apurada análise do britânico David Harvey a respeito da cidade, provocando reflexões contundentes, a respeito de quem controla o acesso aos recursos urbanos, por exemplo, ou de quem determina a organização (e a qualidade) da vida quotidiana.

aqui (com alterações): https://pt.wikipedia.org/wiki/David_Harvey

alguns artigos na net (inglês): http://davidharvey.org/category/articles/

Escuta, anarquista!, por David Harvey (em castelhano):  https://abandazos.files.wordpress.com/2016/06/c2a1escucha-anarquista-david-harvey.pdf

Entrevista a David Harvey (português):  https://www.cartacapital.com.br/internacional/201cnao-acredito-que-temer-tera-forca-politica-por-muito-tempo201d

Entrevista a David Harvey (português): http://outraspalavras.net/posts/as-cidades-rebeldes-de-david-harvey/

Noam Chomsky: um anarquista polémico

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Avram Noam Chomsky (Filadélfia, 7 de dezembro de 1928) é um linguista, filósofo, cientista cognitivo, comentarista e activista político norte-americano, que se autoclassifica como anarcosindicalista. Conhecido no meio académico como “o pai da linguística moderna”, também é uma das mais importantes figuras no campo da filosofia analítica. As suas ideias vão estar em destaque na sessão da próxima quarta-feira, dia 29 de Março, do Ciclo do Pensamento Libertário, na Livraria “Ler Com Prazer”, pelas 18 h, em Évora.

Chomsky é Professor Emérito em Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, e teve seu nome associado à criação da gramática ge(ne)rativa transformacional. É também o autor de trabalhos fundamentais sobre as propriedades matemáticas das linguagens formais, tendo seu nome associado à chamada Hierarquia de Chomsky. Seus trabalhos, combinando uma abordagem matemática dos fenómenos da linguagem com uma crítica do behaviorismo, nos quais a linguagem é conceitualizada como uma propriedade inata do cérebro/mente humanos, contribuem decisivamente para a formação da psicologia cognitiva, no domínio das ciências humanas.

Além da sua investigação e ensino no âmbito da linguística, Chomsky é também conhecido pelas suas posições políticas de esquerda e pela sua crítica da política externa dos Estados Unidos. Chomsky descreve-se como um socialista libertário. Identifica-se com aquilo que é modernamente compreendido como “anarcossindicalismo”, havendo também quem o associe ao anarcocomunismo ou ao comunismo de conselhos.

A visão política de Chomsky mudou pouco, desde a sua infância. Sua posição ideológica se desenvolve em torno da ideia de “nutrir o caráter libertário e criativo do ser humano”, e ele descreve suas crenças como “anarquistas bem tradicionais, com origens no Iluminismo e no liberalismo clássico.” Enaltece o socialismo libertário, e descreve a si próprio como um anarco-sindicalista.

Chomsky é um dos intelectuais públicos mais importantes dos Estados Unidos. É membro das organizações Campaign for Peace and Democracy e Industrial Workers of the World. Também é membro do conselho consultivo provisório da International Organization for a Participatory Society. Chomsky é partidário das lutas populares como forma de ampliar a democracia.Ele também tem manifestado sua oposição às elites dominantes e a instituições como o FMI, Banco Mundial e o GATT.

Chomsky considera o terrorismo de Estado como um problema mais relevante do que o terrorismo praticado por grupos políticos dissidentes. Ele distingue claramente entre o ato de matar civis e o ato de atacar pessoal militar e suas instalações. Ele afirma: “assassinato de civis inocentes é terrorismo, não guerra contra o terrorismo”

Chomsky tem criticado o governo do seu país pelo seu envolvimento na Guerra do Vietnã e no mais amplo conflito da Indochina, assim como pela interferência em países da América Central e da América do Sul e pelo apoio militar a Israel, Arábia Saudita e Turquia. Chomsky focaliza sua crítica mais intensa nos regimes amigos do governo dos Estados Unidos enquanto critica seus inimigos oficiais – como a antiga União Soviética e Vietnã do Norte somente de passagem. Ele explica este comportamento com o seguinte princípio: “é mais importante avaliar ações que você tem mais possibilidade de influenciar.” Sua crítica da antiga União Soviética e da República Popular da China tem tido algum efeito nesses países pois ambos os governos censuraram seu trabalho, com o banimento da publicação de seus livros.

Chomsky tem repetidamente enfatizado sua teoria de que a maior parte da política externa dos Estados Unidos é baseada no “perigo do bom exemplo” o qual ele diz que é um outro nome para a teoria do dominó. O “perigo do bom exemplo” é representado por um país que conseguisse se desenvolver com sucesso independentemente do capitalismo e da influência dos Estados Unidos e desta maneira apresentasse um modelo para outros países nos quais este país tem fortes interesses econômicos.

Isto, diz Chomsky, tem feito com que o governo norte-americano repetidamente intervenha para impedir movimentos “socialistas” e outros movimentos “independentes” mesmo em regiões do mundo nas quais ele não tem interesses econômicos e de segurança significantes. Em um de seus mais famosos livros, What Uncle Sam Really Wants, Chomsky utiliza esta teoria particular como uma explicação para as intervenções do governo norte-americano na Guatemala, no Laos, na Nicarágua e em Granada.

Chomsky também acredita que as políticas da Guerra Fria do governo norte-americano não foram inteiramente modelados pela paranoia antissoviética mas, mais que isso, buscava a preservação da ideologia econômica e ideológica norte-americana no mundo. Como escreveu em seu livro Uncle Sam: “O que os Estados Unidos querem é ‘estabilidade’, e isto quer dizer segurança para as classes altas e para as grandes empresas multinacionais”.

Embora quase sempre seja um crítico da política externa do governo norte-americano, Chomsky também sempre tem expressado sua admiração pela liberdade de expressão usufruída pelos cidadãos desse país em grande número de suas entrevistas e livros. Mesmo em relação a outras democracias ocidentais, tais como a França e o Canadá, menos liberais na defesa da liberdade de debater que os Estados Unidos, Chomsky não hesita em criticar esses países por isto, como mostra o affair Faurisson. Esta sutileza parece não ser notada pelos críticos de Chomsky, os quais consideram sua visão da política externa americana como um ataque a todos os valores da sociedade americana.

Chomsky se opõe profundamente ao sistema de “capitalismo de estado voltado para grandes empresas” praticado pelos Estados Unidos e seus aliados. Ele descreve a si mesmo como um Liberal Clássico porém, de acordo com Chomsky, o liberalismo clássico passou por tremendas transformações ao longo da história, sendo que as posições atualmente identificadas com o liberalismo clássico nada teriam a ver com os ideais destas ideologias caso fossem observadas as intenções de seus autores. De acordo com Chomsky, o liberalismo clássico coerente com as propostas de seus idealizadores seria visto hoje em dia como anarcosocialismo – exigindo liberdade econômica além do “controle da produção pelos próprios trabalhadores e não por proprietários e administradores que os governem e tomem todas as decisões”.

Chomsky refere-se a isto como o “socialismo real” e descreve o socialismo no estilo soviético como semelhante, em termos de controle totalitário, ao capitalismo no estilo norte-americano. Ambos os sistemas se baseiam em tipos e níveis de controle mais do que em organização ou eficiência. Na defesa desta tese, Chomsky refere por vezes que a filosofia da administração científica proposta por Frederick Winslow Taylor foi a base organizacional para o maciço movimento de industrialização soviético e, ao mesmo tempo, o modelo empresarial norte-americano.

Chomsky tem buscado iluminar os comentários de Bakunin sobre o estado totalitário como uma previsão para o brutal estado policial que iria se instaurar em seguida à revolução soviética. Reafirma a opinião de Bakunin: “…após um ano [..] a ordem revolucionária irá se tornar muito pior que a do próprio czar” que é construída sobre a ideia de que o estado tirano soviético era simplesmente um crescimento natural da ideologia de controle de estado bolchevique. Ele também chamou o comunismo soviético de “falso socialismo” e disse que, contrariamente ao que muitos nos Estados Unidos diziam, o colapso da União Soviética devia ser considerada uma “pequena vitória para o socialismo” e não para o capitalismo.

Em “For Reasons of State”, Chomsky advoga que ao invés de um sistema capitalista no qual as pessoas sejam “escravos assalariados” ou um estado autoritário no qual as decisões sejam tomadas por um comitê central, uma sociedade devia funcionar sem pagamento do trabalho. Ele argumenta que as pessoas de todas as nações deviam ser livres para realizar os trabalhos que escolhessem. As pessoas deveriam ser livres para fazer o que eles quisessem e o trabalho que eles voluntariamente escolhessem deveria ser ao mesmo tempo “recompensador em si mesmo” e “socialmente útil”. “A sociedade seria dirigida sob um sistema de anarquismo pacífico sem a necessidade das instituições do “estado” ou do “governo”. Os serviços necessários mas que fossem fundamentalmente desagradáveis – se existissem -, seriam também igualmente distribuídos a todos.

daqui: https://pt.wikipedia.org/wiki/Noam_Chomsky

algumas referências sobre Chomsky:

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2016/02/17/noam-chomsky-o-centro-da-natureza-humana-e-o-que-bakunin-chamou-deinstinto-da-liberdade/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/01/01/noam-chomsky-e-o-anarquismo/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/02/06/chomsky-sobre-lenin-trotsky-socialismo-e-a-uniao-sovietica/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/03/25/chomsky-sobre-a-austeridade-em-portugal-e-nos-paises-do-sul-da-europa/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2014/01/27/chomsky-as-democracias-europeias-chegaram-ao-colapso-total/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2013/09/04/chomsky-o-ataque-dos-estados-unidos-a-siria-sem-o-apoio-da-onu-seria-um-crime-de-guerra/

https://colectivolibertarioevora.wordpress.com/2015/01/28/chomsky-american-sniper-reflecte-a-campanha-terrorista-de-obama/

Sessão de amanhã (22/3) adiada para a próxima quarta-feira

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Devido a questões relacionadas com o companheiro que deveria apresentar as ideias de Chomsky na sessão desta quarta-feira do “Ciclo do Pensamento Libertário” comunicamos que a sessão teve que ser adiada para a próxima quarta-feira, dia 29 de Março. O calendário do “Ciclo de Pensamento Libertário” fica, depois de rearranjado, deste modo:
 
29/3 – Chomsky
12/4 – David Harvey
3/5 – John Zerzan
Sessões abertas e públicas na Livraria “Ler Com Prazer” (Évora) às 18 horas de quarta-feira (quinzenalmente)

Murray Bookchin (1921-2006)

ACTUALIZAÇÃO: A sessão sobre Murray Bookchin marcada para quarta-feira, dia 15 de Fevereiro, na Livraria “Ler Com Prazer”, em Évora,  é adiada para o dia 8 de Março devido a doença do companheiro que deveria apresentar o autor. A partir dessa data as sessões do “Ciclodo Pensamento Libertário” retomam a sua periocidade quinzenal com o seguinte calendário:

8/3 – Murray Bookchin
22/3 – Chomsky
5/4 – Jacques Fresco
19/4 – David Harvey
3/ 5 – John Zerzan

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Murray Bookchin é o próximo autor a ter o seu pensamento apresentado e debatido no “Ciclo do Pensamento Libertário” que se realiza quinzenalmente em Évora, na Livraria Ler Com Prazer. 

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Murray Bookchin (14 de Janeiro de 1921-30 de Julho de 2006) foi historiador, professor universitário, investigador, ideólogo e activista ecologista norte-americano, fundador da ecologia social e um dos pioneiros do movimento ecologista. Foi também um dos primeiros teóricos do municipalismo libertário e do confederalismo democrático, hoje posto em prática pelo movimento curdo nas zonas libertadas.

É autor de uma extensa colecção de livros sobre história, política, filosofia, assuntos urbanísticos e ecologia. Ideologicamente, Bookchin evoluiu do marxismo tradicional para o socialismo libertário, na tradição anarquista de Kropotkin.

Nasceu em Nova Iorque em 1921, de pais imigrantes russo, que tinham participado no movimento revolucionário na Rússia na época do czares. Muito rapidamente, nos anos trinta, entrou no movimento juvenil comunista, mas ao final dessa década já estava decepcionado pelo seu carácter autoritário. Durante os anos da guerra civil espanhola envolveu-se no movimento nova-iorquino de apoio a Espanha (Support Spain), uma vez que era demasiado jovem para participar directamnet, ainda que alguns dos seus amigos tenham morrido na frente de Madrid. Esteve ao lado dos comunistas até ao Pacto entre Estaline e Hitler em 1939, alturaem que foi expulso por desvios trotskistas.

Ligou-se ao movimento operário e participou activamente na organização de sindicatos no norte do Estado de Nova Jersey quando trabalhava numa fundição, para o Congresso de Organizações Industriais (CIO). Colaborando activamente com o movimento trotskista, durante os anos quarenta trabalhou na industria automóvel, militando durante dez anos na United Auto Workers (AUW), organização claramente libertária antes que Walter Reuther se tornasse seu presidente. Depois de participar na grande greve da General Motors em 1948, começa a questionar todas a suas concepções tradicionais acerca do papel hegemónico da classe trabalhadora industrial, escrevendo posteriormente extensamente sobre o tema.

Durante essa época converteu-se em socialista libertário colaborando estreitamente com exilados alemães em Nova Iorque que tinham abandonado o comunismo e evoluíam para uma perspectiva anarquista (Internationalen Kommunisten Deutschlands). Muitos dos seus artigos dos primeiros anos forma publicados em “Dinge der Zeit”, assim como na publicação irmã em língua inglesa “Comtemporary Issues”. O seu primeiro livro: “The Problem of Chemicals in Food” foi publicado na Alemanha. Foi um dos primeiros activistas políticos a escrever sobre ecologia, tanto nos Estados Unidos, como na Alemanha Federal. Os seus textos contribuíram para alterar a legislação alemã sobre a farmacologia e a alimentação.

Nos anos sessenta envolveu-se nos movimentos contra-culturais e da Nova Esquerda. O seu primeiro livro americano: “Our Synthetic Enviroment” foi publicado em 1962. A seguir escreveu “Crisis in our Cities”, em 1965. Uma colecção intitulada: O anarquismo depois da escassez, 1971, compreendia ensaios tão inovadores como “Ecologist and Revolutionary thougt” (1964) ou “Towards a Liberatory Technology” (1965) que destacavam a importância crucial do tema ecológico e das energias alternativas para os movimento progressistas de qualquer espécie. Até ao final dos anos sessenta, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha circularam peo menos 100.000 exemplares da sua crítica ao marxismo tradicional: “Listen, Marxist!” (1969), influenciando profundamente o movimento da Nova Esquerda americana.

Nos últimos anos da década deu aulas na Universidade Alternativa de Nova Iorque. Em 1974 participou na fundação do Instituto para a Ecologia Social de Vermont e assumiu a sua direcção, adquirindo reconhecimento internacional pelos seus cursos de eco-filosofia, teoria social e tecnologias alternativas. Começou também a dar aulas No Rampo College de Nova Jersey, convertendo-se em catedrático de teoria social, lugar de que se retiraria em 1983como professor emérito.

Viveu os últimos anos semi-retirado em Burlington, Vermont, onde partilhava dois cursos básicos todos os verões no Instituto para a Ecologia Social e dava conferências ocasionais nos Estados Unidos e na Europa. Era consultor editorial de Anarchist Studies e de Society and Nature. Em conjunto com a sua companheira Janet Biehl, e outros, publicou mais de trinta números da revista teórica Green Perspectives.

Uma das suas últimas propostas foi aquilo o que chamou de municipalismo libertário, baseada na recuperação das assembleias populares e na democracia directa ao nível municipal, de vizinhança e de bairro. Para evitar que isso pudesse conduzir a um provincianismo das cidades propõe um confederalismo cívico e uma economia municipalizada, em oposição ao sistema capitalista e à economia estatizada marxista.

Morreu em casa, a 30 de Julho de 2006, de um enfarte. Tinha 85 anos.

A integração das tradições descentralistas, não hierárquicas e populares com a ecologia, a partir da perspectiva filosófica libertária apresentada por Bookchin nos anos 50 e 60 do século passado, quando escreveu e divulgou as suas ideias, era demasiado inovadora naquela altura, mas penetrou posteriormente na consciência dos nossos tempos, em parte também devido aos textos de Fritz Schumacher e de outras ecofeministas que recolhera, o essencial da ideia pedagógica e social dos escritos e das investigações de Bookchin.

Também o confederalismo democrático, baseado nas ideias de Murray Bookchin, tem conhecido um grande desenvolvimento e divulgação ao ser adoptado pelo antigo partido comunista do Curdistão (PKK) e pelo seu líder Abdullah Ocalan, preso há vários anos na Turquia, e que tem servido de base à organização dos territórios curdos libertados na Síria, como é o caso de Rojava.

Daqui, com adaptações: http://www.portaloaca.com/historia/biografias/5578-biografia-de-murray-bookchin.html

textos relacionados:

Autogestão e Tecnologias Alternativas

“ESTE PLANETA MERECE UM DESTINO MELHOR…”

Una breve biografía de Murray Bookchin, por Janet Biehl

Ser un bookchinista, por Chuck Morse

O Curdistão e o Confederalismo Democrático

Neno Vasco: o primeiro tradutor de “A Internacional” para português

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Pauta e versos de “A Internacional” (aqui)

Neno Vasco – o anarquista cujo pensamento vai estar esta quarta-feira em análise em mais uma sessão do “Ciclo do Pensamento Libertário”, em Évora – foi o tradutor da letra da “Internacional” para português, numa versão que foi adoptada por vastos sectores do movimento operário em Portugal e no Brasil.

A letra da “Internacional” foi originalmente composta pelo anarquista Eugene Pottier no período da Comuna de Paris (1872), inspirado pela acções de resistência dos “comunards” contra a repressão do governo francês. Era cantada ao som da Marselhesa, até que outro anarquista, Pierre Degeyter compôs a música.

A pé, ó vítimas da fome!
A pé, famélicos da terra!
Ruge a razão, ruge e consome
A crosta bruta que a soterra.
Cortai o mal bem pelo fundo!
A pé! A pé! não mais senhores!
Se nada somos em tal mundo,
Sejamos tudo, ó produtores!

Refrão (bis)

Bem unidos façamos,
Nesta luta final,
Duma terra sem amos
A Internacional.

Messias, deus, chefes supremos,
Nada esperemos de nenhum!
Unamos forças e tornemos
A Terra-Mãe livre e  comum!
Para não ter protestos vãos,
Para sair deste antro estreito,
Façamos nós por nossas mãos
Tudo o que a nós nos diz respeito!

Refrão (bis)
Bem unidos…

Crime de rico a lei o cobre,
O Estado oprime o desgraçado.
Não há direitos para o pobre,
Ao rico tudo é tolerado.
À opressão não mais sujeitos!
Somos iguais todos os seres.
Não mais deveres sem direitos,
Não mais direitos sem deveres!

Refrão (bis)
Bem unidos…

Abomináveis na grandeza,
Os reis da mina e da fornalha
Edificaram tal riqueza
Sobre o suor de quem trabalha!
Todo o produto de quem sua
A corja rica o recolheu.
Querendo que ela o restitua,
Reclama o povo o que é bem seu!

Refrão (bis)
Bem unidos…

Fomos de fumo embriagados,
Paz entre nós, guerra aos senhores!
Façamos greve de soldados:
Somos irmãos, trabalhadores!
Se a raça vil, cheia de galas,
Nos quer à força canibais,
Logo verá que as nossas balas
São para os nossos generais!

Refrão (bis)
Bem unidos…

Somos o povo dos activos
Trabalhador, forte e fecundo.
Pertence a Terra aos produtivos;
Ó parasitas, deixa o mundo!
Ó parasita que te nutres
Do nosso sangue a gotejar,
Se nos faltarem os abutres
Não deixa o sol de fulgurar!

Refrão (bis)
Bem unidos…

Neno Vasco (1878-1920)

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Neno Vasco é o próximo autor a ver o seu pensamento apresentado e debatido no “Ciclo do Pensamento Libertário” que se realiza quinzenalmente em Évora, na Livraria Ler Com Prazer. Esta sessão está marcada para o próximo dia 1 de Fevereiro, às 18 horas. A entrada é livre e o debate aberto.

*

Gregório Nazianzeno Moreira de Queiroz e Vasconcelos, mais conhecido como Neno Vasco, nasceu em Penafiel a 9 de Maio de 1878. Aos 8 ou 9 anos de idade emigra juntamente com o seu pai e a sua madrasta para a cidade de São Paulo, no Brasil. Alguns anos depois regressa a Portugal para concluir os seus estudos indo viver na casa de seus avós paternos em Amarante.

Matricula-se na Faculdade de Direito onde passa a ter aulas. Tem como colegas e amigos futuros ilustres da intelectualidade portuguesa como o poeta Teixeira de Pascoaes, Faria de Vasconcelos e António Resende. No ano de 1901 conclui o curso de bacharelado. Ao mesmo tempo passa a empreender atividades militantes, em 2 de Março de 1901 publica o panfleto – A Academia de Coimbra ao Povo Portuguez – onde faz uma ferrenha crítica às arbitrariedades da polícia. Neste mesmo ano começa a escrever artigos para o jornal republicano O Mundo, à época publicado em Lisboa sob a direção de Mayer Garção.

No final de 1901 retorna ao Brasil onde rapidamente estabeleceu contacto com anarquistas italianos através dos quais tomou conhecimento da obra de Errico Malatesta que daquele momento em diante exerceu uma profunda influência no seu pensamento. Em poucos meses passou a corresponder-se com Malatesta e neste contacto as suas ideias e concepções foram-se alterando. Do Brasil escreveu e enviou textos sobre literatura e revolução a serem publicados em Portugal na revista “A Sementeira” na qual também escreveu um artigo memorável sobre a obra, vida e morte do francês Octave Mirbeau.

Na cidade de São Paulo em 1902 passa a editar o jornal “Amigo do Povo” , em conjunto com Benjamim Mota, Oreste Ristori, Giulio Sorelli, Tobia Boni, Ângelo Bandoni, Gigi Damiani e Ricardo Gonçalves. A influência do periódico foi imediata, transformando-se não só como um dos principais espaços de dialogo sobre o movimento anarquista brasileiro, mas também um lugar de reflexão de questões relacionadas com a “emancipação feminina” por um número considerável mulheres notáveis que passaram a contribuir para esta publicação. A partir destas discussões  Neno Vasco publicou um artigo neste periódico refutando a tese do naturalista Émile Zola acerca da fecundidade. Algum tempo depois lançou a revista “Aurora”.

Nas páginas do jornal “Voz do Trabalhador” Neno Vasco respondeu às críticas de alguns anarquistas (entre eles Luigi Galleani) que acusava as organizações anarco-sindicalistas de serem apenas uma nova forma de governo. A polémica sobre as relações entre anarquismo e sindicalismo, deu à época um amplo debate, importante para a compreensão de como as diferentes correntes dentro do movimento libertário se situavam em relação ao movimento operário e à suas organizações.

No ano de 1904 traduziu para o português do francês a obra “Evolução, Revolução e Ideal Anarquista” do francês Élisée Reclus. Em 1905 casou-se com Mercedes Moscovo, anarcafeminista filha de uma família espanhola e anarquista por gerações. Nesta época desenvolveu intensa actividade de propagação do pensamento libertário tornando-se uma referência entre os libertários brasileiros com os quais colaborava. Também neste ano passou a editar o periódico “A Terra Livre” com sua esposa, Edgard Leuenroth e outros. Ao mesmo tempo se manteve em diálogo com outros anarquistas de origem portuguesa que, atuavam no Brasil, entre eles Adelino Tavares de Pinho – um comerciante do Porto que exercera a função de professor na Escola Moderna -, Marques da Costa – editor do jornal “O Trabalho” -, Manuel Cunha, Diamantino Augusto, Amílcar dos Santos, Raul Pereira dos Santos, José Romero, etc.

Em 1909 traduziu o hino internacionalista “A Internacional “do francês Eugène Pottier para o português. Rapidamente a sua versão difundiu-se no meio anarco-sindicalista, tanto no Brasil como em Portugal, passando a ser ouvido em manifestações operárias como greves e comícios nestes dois países desde então.

Proclamada a República em 1910, Neno Vasco retornou a Portugal onde continuou a desenvolver sua militância anarquista, colaborando com a imprensa anarquista brasileira como correspondente. Tornou-se colaborador permanente da revista libertária “A Sementeira” na qual escreveu sobre a situação social no Brasil.

No ano seguinte, nos dias 11, 12 e 13 de Novembro participou do 1º Congresso Anarquista Português. Em 1912 lançou a coleção ‘A Brochura Social’ com Lima da Costa editando duas obras, tomou parte em diversos encontros anarquistas como a (Conferência Anarquista de Lisboa em 1914), publicou o folheto “Geórgias: ao trabalhador rural” no periódico semanal de Pinto Quartin “Terra Livre”, ofereceu cursos de formação aos jovens das Juventudes Sindicalistas em “O Germinal”. Em 1910 desentendeu-se com Emídio Costa sobre estratégias diante da Primeira Guerra Mundial, tendo criado relações de amizade com muitos militantes do movimento anarquista português.

Em 15 de Setembro de 1920, aos 42 anos, Neno Vasco, intelectual brilhante e influente militante libertário em dois continentes, morreu de tuberculose, pobre e seguro das suas posições anarquistas, na freguesia de São Romão do Coronado do concelho de Trofa, no norte de Portugal.

Durante toda sua vida, o seu esforço no movimento editorial muito contribuiu para o crescimento da influência libertária nos meios operários no Brasil e em Portugal. O seu principal livro é “A Concepção Anarquista do Sindicalismo”, publicado em 1923 pelo coletivo editorial do jornal anarco-sindicalista  “A Batalha” e reeditado em 1984.

Na cidade de São Paulo, no bairro Cidade Tiradentes existe uma rua com seu nome. No município de Nova Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro há igualmente um edifício com o nome Pr. Neno Vasco construído em 1976.

daqui (com alterações do texto) e daqui

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Biografia de Neno Vasco “Minha Pátria é o mundo inteiro”, de Alexandre Samis. editora Letra Livre, Lisboa, 2009, 455 páginas